Antônio despiu-se
Despiu-se de quê?
Da gravata? Da calça?
Da cueca?
Não
Despiu-se da mulher
Dos filhos, dos irmãos
Dos amigos, das tralhas
Despiu-se do dinheiro
A custo acumulado
Despiu-se dos planos
Despiu-se dos netos
Que ainda não teve
E dos tataravós
Que não conheceu
Despiu-se do imenso
Azul que por trás
É negro e infinito
Tão negro e infinito
Que de negro e infinito
O fazia
Granito.
Ele despiu-se
Despiu-se de quê?
Da gravata? Da calça?
Da cueca?
Também
Despiu-se da pele
Por baixo da roupa
Despiu-se da carne
Por baixo da pele
Despiu-se do dia
Em que conheceu Maria
Despiu-se do dia
Em que perdeu a mãe
Despiu-se da noção
De prêmio e punição
Dos avatares pretéritos e dos de amanhã
(Do que cria e não cria)
Despiu-se da infância persistente
Despiu-se de si
despiu-se
Despiu-se de quê?
Da gravata? Da calça?
Da cueca?
Nem
Despiu-se da morte
Despiu-se de despir-se
Despiu-se do
Vazio
E do branco da página
Depois desse "do"
Despiu-se
Mas despiu-se tanto
Que nem se despiu
(Max Lobato)
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