domingo, 10 de abril de 2022

DESPEDIDA

 


Antônio despiu-se
Despiu-se de quê?
Da gravata? Da calça?
Da cueca?
Não

Despiu-se da mulher
Dos filhos, dos irmãos
Dos amigos, das tralhas

Despiu-se do dinheiro 
A custo acumulado                   

Despiu-se dos planos

Despiu-se dos netos
Que ainda não teve

E dos tataravós
Que não conheceu

Despiu-se do imenso
Azul que por trás
É negro e infinito
Tão negro e infinito
Que de negro e infinito
O fazia
Granito.

Ele despiu-se
Despiu-se de quê?
Da gravata? Da calça?
Da cueca?
Também

Despiu-se da pele
Por baixo da roupa

Despiu-se da carne
Por baixo da pele

Despiu-se do dia
Em que conheceu Maria

Despiu-se do dia 
Em que perdeu a mãe

Despiu-se da noção 
De prêmio e punição 

Dos avatares pretéritos e dos de amanhã 

(Do que cria e não cria)

Despiu-se da infância persistente

Despiu-se de si

         despiu-se
Despiu-se de quê?
Da gravata? Da calça?
Da cueca?
Nem

Despiu-se da morte
Despiu-se de despir-se
Despiu-se do
Vazio 
E do branco da página 
Depois desse "do"

Despiu-se

Mas despiu-se tanto
Que nem se despiu


                      
                             (Max Lobato)




   

                  
                            

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A MORTE DO CAMARADA

Já não há desigualdade social.  Já não há murro na mesa.  Já não há exploração, alienação, mais-valia. Já não há Guevara e Trotski.  Já não ...