Seria um revólver qualquer
feito para matar
ou ao menos ameaçar
se não tivesse assassinado Van Gogh
em obediência à mão
do próprio pintor
o alquimista
que transmutava girassóis em sóis
Teria executado um ladrão
perpetrado um fratricídio
um feminicídio
colecionado vítimas
pelos dedos de um serial killer
ou de um policial
mas calhou
como o destino de certos homens
de ultrapassar o último suspiro
(neste caso, último tiro)
Um revólver não tem
consciência, não tem sentidos
ou nervos
(o que por certo é de bom alvitre
para quem foi criado para matar)
portanto não "se acha"
como "se acharia" Van Gogh
se vivesse mais algumas décadas
Ainda tem corpo
a despeito da crosta, da ferrugem
ao contrário do pintor
sem resto físico
ou rosto de vapor
Ficou perdido durante setenta anos, diz o jornal,
enterrado
num limbo
onde as coisas apenas são
por probabilidade
ou pela insônia de uma divindade
e de lá
súbito emergiu para o glamour
do revólver?
de Van Gogh?
do comprador?
de nós outros
(piolhos? corvos?),
seus cantores?
Quem o fabricou, primeiro motor
(vivas a ele!)
do seu destino
por tabela
glorioso?
(ops, que o Big Bang reclama autoria
como um Big Bang transcendental reclamaria
de uma patente usurpada por Alguém)
Não sabemos se é mesmo esse, diz um estudioso.
Nesse caso, será este caso
como o de um falso gênio ou herói
a quem atribuímos obra,
perdidas as vias de conexão que
levariam (levam) ao verdadeiro elo-herói?
Vai a leilão em Paris, podendo alcançar a cifra de 60.000
[euros
porque teria matado ninguém menos que Van Gogh!
Nada mal para um pobre
o único a quem não interessa
todo esse debate
já que está morto há tanto tempo --
o bulinado o lunático o ridículo
o tema das chacotas
que pressentiu que um dia viraria um deus
embora tenha dito, com razão
que a tristeza nunca terá fim.
(Max Lobato)
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