Enquanto ando
na avenida Pedro II, em Abaetetuba,
em dois mil e vinte e dois,
e se imiscuem, contra as regras da
impenetrabilidade, casas sob armazéns,
lojas sob locadoras,
e pernas de outrora pedalam bicicletas
de agora,
me espia um guri.
E se deparo a placidez
da praça da Conceição
numa manhã de segunda-feira,
levanta-se a voz de um padre morto,
fazendo cair um sábado
e os cochichos dos catequistas
entre eles o guri
que me olha e me estranha.
E quando vou me aproximando
da feira, passando
o canto do carnaval, e o vento
antigo que roça a lama sopra inconveniências,
é o guri que me chama, ou antes,
puxa meus olhos imantados para
trás, para quando
era ele que olhava
o rio e o vazio
misterioso da mata.
Entre as vozes e as catracas,
as zoadas e os pregões
de garapas e cachaças,
maparás e camarões,
entre os chistes e as lorotas
da matrona corpulenta,
já não sei se vivo o agora
ou a década de oitenta.
Entre polpas de acerolas,
cupuaçus e bacuris,
entre aromas multicores
e acidez de buritis,
o suor caboclo molha
a camisa e o chão que esquenta:
já não sei se vivo o agora
ou a década de oitenta.
Entre cheiros do Pará
e caroços de açaí,
pitiú de capivara
e navios de miriti,
o vendeiro põe a joia
na novinha pardacenta:
já não sei se vivo o agora
ou a década de oitenta.
Entre toques de petecas,
o armazém e o atacadão,
uma bike passa e prega:
A PUPUNHA! (do Carão?).
O caboclo passa a porta,
entra, pede a pinga e senta:
Já não sei se vivo o agora
ou a década de oitenta.
Entre barcos que se agitam
na ânsia de voltar ao rio,
onde o coto do trapiche
que a Boiúna submergiu?
E este mano e esta cocota?
trocam zap? carta? menta?
Já não sei se vivo o agora
ou a década de oitenta.
...ou a década de oitenta
quando o guri e eu
éramos um só
só o guri
o guri
que ainda está ali
e parece estranhar este senhor
ainda com traços de rapaz
e gestos de adolescente
com caderno e caneta na mão
em lugar da régua T ou do estetoscópio.
Há uma tarde antiga
dentro de uma tarde nova
dentro desta manhã
tarde nova a que me transporto
para rever a tarde antiga
reinventada no ateliê
que fica num dos corredores de um labirinto
lá onde um Monet papa-chibé registra as impressões do Sol
poente derramando-se nas ondas
e onde o popopô passa rascante
pela trilha de pó de luz
--diamante
que os dedos purificadores de Cronos trabalharam
Tarde antiga onde/quando
não havia Monet
nem havia verso:
apenas poesia latente
no útero do acaso.
A casa era por aqui. Onde? Procuro-a
e aí está, a madeira
que parecia velha há 40 anos
resiste às mudanças de habitantes, resiste
às mudanças de nomes, resiste
à mudança nas placas, resiste
à mudança dos vizinhos, resiste
à mudança das marés, resiste
aos rompantes da Cobra Grande, resiste
à mudança do asfalto, resiste
à chegada dos bancos, resiste
à inveja do concreto, resiste
à troca dos prefeitos, resiste
ao limo e aos cupins, resiste
às brigas entre os herdeiros, resiste
à morte dos jovens de outrora, resiste
à vida dos jovens de agora, resiste
como o verde resiste ao progresso, resiste
como a fala cabocla ao inglês, resiste
como o passado dentro do presente, resiste
como o menino dento do homem, resiste
como o guri que agora
talvez esteja lá dentro,
pulando e cantando em um canto do colchão,
ou jogando conversa
com a vizinha no chagão,
sobre a coisa alienígena,
esparramada no chão,
ou catando camapus
ou apanhando mamão,
enquanto a água da maré de março ainda
não invade o quintal afunda a ponte infesta a casa amolece
os pés da estante sobe até aquiagora onde fica empoçada no
peito bicado pelo galo jogado e puxado na vazante
assassinado sem possível perdão
o guri sai da casa correndo dobra a esquina
da Pedro Rodrigues e segue
não sem antes
roubar um avião
de brinquedo de uma banca.
Começo uma reta
que sai do Cruzeiro,
tomando por meta
rever o primeiro
momento da seta
sem alvo e seteiro,
a seta da vida,
no meio da lida:
onde era a portela
de disco e vitrola?
E a casa daquela
magrela da escola?
Passada já a esquina
da rua Getúlio,
no outrora mergulho,
a mente maquina,
então vejo a quina
da praça onde o arrulho
de pombo e menina,
somado ao barulho
de moto e à voz fina
da azul ventania,
evoca alegria.
Se aqui na Siqueira,
sob esta marquise,
não vejo a cadeira
da tia Omaíse,
e adiante a tia Dulce...
--são tempo enterrado,
não importa que pulse
um peito apertado.
Como é que se chama
a escola esquinal?
O nome tem fama.
O dono era um tal
de um lente que em flama
fremera vital.
Seu nome mudou-se
da carne ao concreto
melhor que se fosse
do avô para o neto.
Ali a lixeira
que limpa a caveira
da carne e do afeto
do amigo dileto.
Mas vejo daqui
de novo o guri:
tem mancha de ameixa
na blusa da escola
e a chuva é uma deixa
pro jogo de bola.
Se é o sol que castiga
e a mente é vazia,
já compra uma briga
por galo ou guria;
à noite vertendo
na mina o olhar langue,
às vezes correndo
na frente da gangue.
Está, esteve aqui
a casa da dona Meire esmagada pelo gigantesco edifício
[de uma instituição de ensino superior,
improvável como eu estar vivo,
feito um portador de inutilidades já descartadas
e sentindo que tudo me fita como estrangeiro,
mesmo que o vento pareça me dar as boas-vindas
de quando eu chegava de viagem.
Uma doceria caiu sobre a casa do Célio Ferreira
e estendeu -se até onde eu ainda ouço o ranger da rede
do seu Benedito esparramando e embalando a pança.
Do outro lado deparo uma familiar surpresa!
Uma porção de outrora congelada, a casa do meu avô,
intacta, mas com a placa de vende-se,
suspiro de quem já viveu demais, cansou
e agora quer dissolver-se como as casas vizinhas,
desconcertada em meio à nova geração de prédios,
como um velho enxuto mas pouco à vontade entre novos
[costumes.
Algumas coisas batem o pé, teimosas em não se apagar
no lado de fora (tampouco nas muitas cópias imprecisas,
imprimidas nos aparelhos mentais
que vão pifando um a um),
recusando-se ao nada ou ao último refúgio
no cérebro de Deus, se o cérebro de Berkeley não o inventou.
Algumas coisas batem o pé, como o matagal
onde foi morto a bala o bandido Coreto, o inconformado
[exilado do tempo
que voltava como caveira luminosa flutuando atrás dos
[galhos
ou furando o muro para ver pentelhos de xotas.
A fila das árvores no meio-campo interrompe o futebol
que já não há...
O céu
espelha
o chão
pois a nuvem e o cimento só não são uma coisa só
por uma questão de velocidade,
que a nuvem tem pressa, embora deste ângulo não pareça:
mais pressa que as pedras manipuladas
pela pressa humana, mais apressadas
que o planeta em ser consumido, mais apressado
que o Sol em consumir-se com mais pressa
que o Universo em seu fluxo para o caos.
(Max Lobato)
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