No planeta do Pelé,
a bola vai, como tinta,
riscando o vento no olé,
e o craque pinta, não finta.
Arquiteta-se a jogada,
no planeta do Pelé,
pondo as retas da Esplanada
entre abóbadas da Sé.
Como explicar ou dar fé
de alguém que esculpe um chapéu,
no planeta do Pelé,
que é bem pertinho do Céu?
Feito esférico pandeiro
costurando o dó-mi-ré,
bate a bola o bom boleiro,
no planeta do Pelé.
Mas é samba ou é balé
que move o corpo a traçar,
no planeta do Pelé,
giros e curvas no ar?
Uma câmera-padrão,
no planeta do Pelé,
não rubrica uma ficção,
mal retoca o que assim é.
No planeta do Pelé,
o craque é o bardo em ação,
pois se um escreve com o pé,
o outro finta com a mão.
Um dia veio um habitante
do planeta do Pelé:
riu-se a bola nesse instante,
como ri-se uma mulher,
e dessas núpcias é
que a prole de maravilhas,
do planeta do Pelé,
rodou mundo, correu milhas...
Seu corpo agora deitou,
pois cansou de rapapé,
mas a alma retornou
ao planeta do Pelé.
(Max Lobato)
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