domingo, 30 de abril de 2023

DO ÓDIO À POLÍTICA




Odeias política.
Mas a política te persegue e fecha um cerco
desde o amanhecer, 
pois a brisa matinal pode estar mais ou menos branda
em conformidade com o sono tranquilo 
ou com o choro de fome das crianças 
quando o preço do leite 
e do pão 
obrigam a família 
a pequenos jejuns de fim de mês.
            E como controlar preços 
            sem a mão do político 
            sobre o valor do petróleo 
            que é mais teu ou mais dos acionistas da empresa 
                                                                                      [segundo a 
            política
            que escolhes ou não escolhes no dia da eleição
            e se o leite e o trigo vêm
            sobre rodas que não rodam
            sem a explosão
            dos derivados do petróleo?

Trocas a carne pelo ovo, reclamas do valor
do aluguel, adias aquela ida à praia
prometida à garotada, esmurras a mesa e por pouco
não agrides tua mulher -- e achas que a política,
que odeias,
não tem nada a ver com isso?

Mas o dono do banco
         com tentáculos que te sugam o suor e o sangue jurando
te dar crédito,
sabe muito bem para que serve a política,
não hesita em comprá-la
e teve lucro recorde no ano passado.
Não tem motivos, portanto, para,
como tu, odiar a política.

             O pastor evangélico 
que explora a tua pobreza material e intelectual
e desvia os teus olhos
da política
para Lugar Algum de onde o Chefe Político
decide tua prosperidade ou tua indigência
segundo o tamanho da tua fé,
que não se sabe como medir, mas, na dúvida,
usa-se a régua dos bens doáveis 
ou a que mede o comprimento das saias;
o pastor evangélico sabe 
para que servem a política
e os messias engravatados.

           Vais fugir para o campo
onde o importuno militante
           não venha te chatear?
           Vais viver de sombra e igarapé,
           na paz?
                             Mas e se, por exemplo, os grilos 
           do grande proprietário de terras douto em
           política
           roerem tua cerca? Onde estarão as bocas 
           que te recusaste a pôr na tribuna, 
           de onde se pode no mínimo gritar em nome da justiça
           diante de câmeras
           e levar o grito às ruas,
           batendo à porta dos tribunais
           para despertar do sono dos justos os que anoitecem 
                                                                                          [fazendo
           da toga travesseiro?

O dono da rede de lojas, que se recusa
a pagar impostos
que poderiam se converter em tua saúde e tua educação
investe parte do seu lucro exorbitante em panfletagem
política
e não perde um jantar com o presidente.
                    Coincidentemente,
seu fruto-do-trabalho espalha tantas sementes
que até brotou um pé
de dinheiro
em tua cidadezinha,
onde comemoras a chegada do progresso
e do emprego-exploração,
"que é melhor que o desemprego", dizes,
embora entre cochichos de bastidores teus direitos 
escritos com o sangue dos bisavós 
sejam pouco a pouco 
retirados
sem que o saibas, tu com teu tampão de ouvido,
recusando-te a ouvir a voz da 
política. 

Até o fora-da-lei quer aliar-se à lei por intermédio da 
política,
pois ela pode dispensá-lo do trabalho de contrabandear 
                                                                                          [armas.
Pode também vendar olhos 
nas delegacias e nas câmaras
e autorizar a legítima defesa
de interesses
resolvidos a bala ou a faca
no campo onde crepita a floresta
ou nos morros para onde o velho oeste estadunidense 
                                                                          [foi exportado
Porque também ele, o fora-da-lei, quer ter
colarinho branco e compreender a
política,
que odeias,
território
que te recusas a ocupar,
deixando-o aos teus inimigos.

Bates
o pé.
Insistes 
em odiar
a política, que, não obstante, te invade por todos os poros,
enquanto bebes tua apolítica coca-cola comprada a um 
                                                                         [vendedor de rua 
a quem te regozijas de ajudar a pôr pirão no prato ao prêmio
de um sorriso da consciência;
enquanto vestes tua camiseta vermelha e azul semeada 
                                                                                   [de estrelas
que o Tio San te vendeu depois de,
politicamente, percorrer muitas mãos, e que,
sem aparente explicação
(talvez porque o Capitão América 
envolveu em música a primeira tarde de cinema 
com a tua amada) 
tornaram-se tuas cores prediletas, 
ao lado das cores da Bandeira Nacional 
e das do teu apolítico 
time de futebol. 
Mas é tão versado em política
o velho Tio San, e tão
suavemente sociável,
que, cheio de braços -- e mãos que cumprimentam,
quase não te mostra o rosto,
a não ser que sejamos indóceis
à sua amizade faminta de ouro e petróleo
e nos arrisquemos ao isolamento, quando não 
a balas e bombas em democráticas campanhas pela paz.

         Vais virar poeta
         parnasiano ou simbolista
                                destinado à glória post mortem
                      e quem sabe à 
                      eternidade?
          Mas que torre ebúrnea se mantém de pé
               com tantas manchetes caindo como bombas 
                                                                                [atômicas 
           sobre a mais teimosa rigidez?
                E se o noticiário 
                bate à tua porta, à tua janela, e após saltar
            sobre o muro e a cerca elétrica,
                  entra em teu pesadelo e toma forma
           de um grupo de atiradores disparando contra o carro
           de um músico preto, e portanto suspeito,
morto sob uma chuva de mais de 80 balas despejadas por
homens da lei
política, descumprida sob ordens
políticas.

              A política faz subir o preço 
                   do teu refúgio literário,
fura um buraco na parede do teu quarto
para ver com quem
estás trepando,
           espalha por toda parte aquele horrível bregalhão 
                                                                       [pseudossertanejo -- 
            Tapas o ouvido e gritas por socorro à
                       política,
e como ainda não há ponte aérea para Marte
ou algo como um teletransporte quântico para
a última galáxia lá da extremidade do universo,
e sequer na doméstica Lua,
onde a política já plantou bandeira, é viável
            fixar residência,
e se rejeitas 
o nó da forca 
como ponto final,
o jeito mesmo é ficares por aqui para enfrentar tua inimiga,
a política,
com sua onipresença e a sua força cavalar, 
pegá-la pela crina de suas múltiplas cabeças,
dominá-la 
com milhões de pulsos 
dos milhões de cavaleiros teus iguais, 
achar-lhe um rumo
e esporeá-la com as esporas da esperança. 


                                                 (Max Lobato)
 
               







  




                                                                                

   



  
   





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