Odeias política.
Mas a política te persegue e fecha um cerco
desde o amanhecer,
pois a brisa matinal pode estar mais ou menos branda
em conformidade com o sono tranquilo
ou com o choro de fome das crianças
quando o preço do leite
e do pão
obrigam a família
a pequenos jejuns de fim de mês.
E como controlar preços
sem a mão do político
sobre o valor do petróleo
que é mais teu ou mais dos acionistas da empresa
[segundo a
política
que escolhes ou não escolhes no dia da eleição
e se o leite e o trigo vêm
sobre rodas que não rodam
sem a explosão
dos derivados do petróleo?
Trocas a carne pelo ovo, reclamas do valor
do aluguel, adias aquela ida à praia
prometida à garotada, esmurras a mesa e por pouco
não agrides tua mulher -- e achas que a política,
que odeias,
não tem nada a ver com isso?
Mas o dono do banco
com tentáculos que te sugam o suor e o sangue jurando
te dar crédito,
sabe muito bem para que serve a política,
não hesita em comprá-la
e teve lucro recorde no ano passado.
Não tem motivos, portanto, para,
como tu, odiar a política.
O pastor evangélico
que explora a tua pobreza material e intelectual
e desvia os teus olhos
da política
para Lugar Algum de onde o Chefe Político
decide tua prosperidade ou tua indigência
segundo o tamanho da tua fé,
que não se sabe como medir, mas, na dúvida,
usa-se a régua dos bens doáveis
ou a que mede o comprimento das saias;
o pastor evangélico sabe
para que servem a política
e os messias engravatados.
Vais fugir para o campo
onde o importuno militante
não venha te chatear?
Vais viver de sombra e igarapé,
na paz?
Mas e se, por exemplo, os grilos
do grande proprietário de terras douto em
política
roerem tua cerca? Onde estarão as bocas
que te recusaste a pôr na tribuna,
de onde se pode no mínimo gritar em nome da justiça
diante de câmeras
e levar o grito às ruas,
batendo à porta dos tribunais
para despertar do sono dos justos os que anoitecem
[fazendo
da toga travesseiro?
O dono da rede de lojas, que se recusa
a pagar impostos
que poderiam se converter em tua saúde e tua educação
investe parte do seu lucro exorbitante em panfletagem
política
e não perde um jantar com o presidente.
Coincidentemente,
seu fruto-do-trabalho espalha tantas sementes
que até brotou um pé
de dinheiro
em tua cidadezinha,
onde comemoras a chegada do progresso
e do emprego-exploração,
"que é melhor que o desemprego", dizes,
embora entre cochichos de bastidores teus direitos
escritos com o sangue dos bisavós
sejam pouco a pouco
retirados
sem que o saibas, tu com teu tampão de ouvido,
recusando-te a ouvir a voz da
política.
Até o fora-da-lei quer aliar-se à lei por intermédio da
política,
pois ela pode dispensá-lo do trabalho de contrabandear
[armas.
Pode também vendar olhos
nas delegacias e nas câmaras
e autorizar a legítima defesa
de interesses
resolvidos a bala ou a faca
no campo onde crepita a floresta
ou nos morros para onde o velho oeste estadunidense
[foi exportado
Porque também ele, o fora-da-lei, quer ter
colarinho branco e compreender a
política,
que odeias,
território
que te recusas a ocupar,
deixando-o aos teus inimigos.
Bates
o pé.
Insistes
em odiar
a política, que, não obstante, te invade por todos os poros,
enquanto bebes tua apolítica coca-cola comprada a um
[vendedor de rua
a quem te regozijas de ajudar a pôr pirão no prato ao prêmio
de um sorriso da consciência;
enquanto vestes tua camiseta vermelha e azul semeada
[de estrelas
que o Tio San te vendeu depois de,
politicamente, percorrer muitas mãos, e que,
sem aparente explicação
(talvez porque o Capitão América
envolveu em música a primeira tarde de cinema
com a tua amada)
tornaram-se tuas cores prediletas,
ao lado das cores da Bandeira Nacional
e das do teu apolítico
time de futebol.
Mas é tão versado em política
o velho Tio San, e tão
suavemente sociável,
que, cheio de braços -- e mãos que cumprimentam,
quase não te mostra o rosto,
a não ser que sejamos indóceis
à sua amizade faminta de ouro e petróleo
e nos arrisquemos ao isolamento, quando não
a balas e bombas em democráticas campanhas pela paz.
Vais virar poeta
parnasiano ou simbolista
destinado à glória post mortem
e quem sabe à
eternidade?
Mas que torre ebúrnea se mantém de pé
com tantas manchetes caindo como bombas
[atômicas
sobre a mais teimosa rigidez?
E se o noticiário
bate à tua porta, à tua janela, e após saltar
sobre o muro e a cerca elétrica,
entra em teu pesadelo e toma forma
de um grupo de atiradores disparando contra o carro
de um músico preto, e portanto suspeito,
morto sob uma chuva de mais de 80 balas despejadas por
homens da lei
política, descumprida sob ordens
políticas.
A política faz subir o preço
do teu refúgio literário,
fura um buraco na parede do teu quarto
para ver com quem
estás trepando,
espalha por toda parte aquele horrível bregalhão
[pseudossertanejo --
Tapas o ouvido e gritas por socorro à
política,
e como ainda não há ponte aérea para Marte
ou algo como um teletransporte quântico para
a última galáxia lá da extremidade do universo,
e sequer na doméstica Lua,
onde a política já plantou bandeira, é viável
fixar residência,
e se rejeitas
o nó da forca
como ponto final,
o jeito mesmo é ficares por aqui para enfrentar tua inimiga,
a política,
com sua onipresença e a sua força cavalar,
pegá-la pela crina de suas múltiplas cabeças,
dominá-la
com milhões de pulsos
dos milhões de cavaleiros teus iguais,
achar-lhe um rumo
e esporeá-la com as esporas da esperança.
(Max Lobato)
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